MBCBrasil apresenta caminhos para uma mobilidade de baixo carbono em seminário no Consulado Britânico

9 minutos de leitura

O Consulado Britânico, em São Paulo, foi palco de um seminário decisivo promovido pelo MBCBrasil – Mobilidade de Baixo Carbono para o Brasil, reunindo especialistas, autoridades e representantes do setor de transporte e energia para debater soluções eficazes e viáveis para a descarbonização. O encontro, que contou com a cobertura da equipe do Move News, destacou o papel estratégico dos biocombustíveis e reforçou a liderança brasileira nesse debate.

A abertura institucional foi conduzida por José Eduardo Luzzi, que falou em nome do MBCBrasil e apresentou as diretrizes que norteiam o movimento. Luzzi destacou que o Brasil tem ativos únicos, como matriz energética limpa, indústria consolidada e vocação agroenergética, que o colocam como um player natural na construção de soluções sustentáveis e inclusivas.

Em sua fala, Luzzi foi enfático ao afirmar que a mobilidade de baixo carbono precisa ser viável e adaptada à realidade brasileira. Segundo ele, “é necessário construir uma narrativa fundamentada em dados e não em modismos. O Brasil pode liderar sem copiar modelos externos, valorizando suas fortalezas e defendendo sua soberania energética”.

Dados apresentados durante sua exposição mostram que o setor de transportes responde por 9% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, sendo o modal rodoviário responsável por 91% dessas emissões. A estrutura logística e a idade média da frota – com mais de 55% dos veículos com mais de 11 anos – agravam o cenário e reforçam a necessidade de políticas públicas urgentes.

Entre as metas do MBCBrasil estão: reduzir os custos da descarbonização, defender uma transição equilibrada, influenciar políticas públicas e garantir segurança energética. O movimento também propõe o aumento da mistura de biocombustíveis, a adoção de gás natural e biometano, além de promover a renovação da frota nacional.

Outro ponto abordado por Luzzi foi a projeção de crescimento da frota brasileira até 2040. Mesmo com o avanço da eletrificação, os motores de combustão interna ainda representarão a maioria dos veículos em circulação. Isso reforça a importância dos biocombustíveis como solução imediata para a redução das emissões.

O MBCBrasil ainda apresentou sua agenda de atuação em três fases: a primeira, já concluída, dedicada ao letramento técnico e comunicação de conceitos estratégicos; a segunda, atualmente em andamento, trata dos desafios estruturantes e políticas energéticas; e a terceira, que envolve a execução de políticas de descarbonização viável e inclusiva.

A fala de Luzzi encerrou-se com um convite à ação: “o Brasil já tem as soluções. O que falta agora é ampliar a convergência de esforços e transformar conhecimento em prática. Precisamos agir com urgência, mas com inteligência”.

Estudo técnico apresentado por Glaucia Souza destaca papel dos biocombustíveis sem comprometer a segurança alimentar

Na sequência da abertura institucional, a Profa. Glaucia Souza, uma das maiores especialistas brasileiras em bioenergia, apresentou os principais dados do estudo “Biocombustíveis como solução imediata e eficaz para a descarbonização do transporte”, desenvolvido no âmbito da BIOEN-Fapesp. A apresentação teve como foco desmistificar a suposta competição entre biocombustíveis e alimentos.

Com base em 224 artigos científicos revisados, Glaucia destacou que não há correlação negativa entre o uso de matérias-primas para bioenergia (comestíveis ou não) e a segurança alimentar. Pelo contrário: 2/3 dos estudos apontam impactos positivos ou neutros na disponibilidade e nos preços de alimentos.

Entre os fatores positivos observados com a introdução de biocombustíveis estão o fortalecimento da infraestrutura agrícola, o aumento do poder de compra em regiões rurais, a modernização da agricultura, a melhoria da qualidade do solo e o maior acesso à energia – todos diretamente ligados ao fortalecimento da segurança alimentar.

Glaucia apresentou também a eficiência dos sistemas de cultivo integrados no Brasil, como a alternância entre cana-de-açúcar, amendoim, soja e milho, que contribuem para a fixação de nitrogênio no solo, reduzindo o uso de fertilizantes e, consequentemente, as emissões. “Esse modelo brasileiro é referência mundial em sustentabilidade agrícola”, reforçou.

A especialista também desmontou o argumento de que biocombustíveis comprometem o abastecimento global de alimentos. Em 2024, o Brasil alimentou o equivalente a 900 milhões de pessoas no mundo, sendo um dos maiores produtores e exportadores de alimentos – ao mesmo tempo em que é referência na produção de etanol e biodiesel.

Outro dado importante apresentado foi que a produção de biodiesel no Brasil utiliza apenas 3% da produção nacional de soja – o restante é direcionado à alimentação e à exportação. Isso reforça que alimento, ração, combustíveis e energia podem ser produzidos em paralelo, com eficiência e sem prejuízos.

A pesquisadora também destacou que o Brasil é o país que mais preserva vegetação nativa no mundo. Segundo o Código Florestal, produtores são obrigados a manter de 20% a 80% da área com vegetação nativa preservada, dependendo da região. “Esse é um diferencial ambiental e um ativo estratégico do Brasil que poucos países possuem”, pontuou.

Finalizando sua apresentação, Glaucia lembrou que, para os países emergentes, os biocombustíveis representam um potencial de economia de até 300 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Com ampla base científica, o estudo reforça que é possível descarbonizar, gerar emprego e garantir segurança alimentar simultaneamente.

Impactos no aftermarket automotivo nos próximos anos

As discussões e dados apresentados no seminário promovido pelo MBCBrasil têm reflexos diretos sobre o aftermarket automotivo nacional. Segundo a ANFAVEA, o Brasil possui atualmente uma frota circulante de aproximadamente 48 milhões de veículos, dos quais mais de 22 milhões têm mais de 11 anos de uso – o que representa 55% da frota total. Nos próximos 5 anos, espera-se uma demanda crescente por peças de reposição e manutenção preventiva voltadas a veículos mais antigos, além de uma adaptação gradual das oficinas à manutenção de veículos movidos a biocombustíveis e sistemas híbridos. Em 10 anos, a previsão é de que o país avance com incentivos à renovação da frota, aumentando a presença de veículos com menor emissão e maior exigência tecnológica – o que impactará diretamente o portfólio de autopeças, exigindo atualização técnica de toda a cadeia. Já em 15 anos, estima-se que, mesmo com o avanço dos eletrificados, 68% da frota ainda será composta por veículos a combustão interna, segundo projeções do próprio MBCBrasil. Isso configura um cenário híbrido e complexo, em que o aftermarket brasileiro deverá operar com amplo domínio técnico, foco em sustentabilidade e protagonismo na integração entre mobilidade limpa, manutenção acessível e extensão de vida útil dos veículos

Direto da fonte! Nossos jornalistas e colaboradores estão atentos a todos os conteúdos que envolvem os elos da cadeia da mobilidade terrestre brasileira. Sempre traremos conteúdo acionável para nossos leitores. Tudo sob a ótica dos CNPJs da cadeia. Da fabricação até a manutenção. Desejamos então, boa leitura! E claro, nos deixe saber a sua opinião. Ao final de cada matéria você pode deixar a sua mensagem ou ainda, através dos links das nossas redes sociais e whatsapp.

Deixe um comentário

Seu endere~co de e-mail n"ao serã publicado.

Anterior

Brasil avança na descarbonização: governo anuncia aumento na mistura de biocombustíveis na gasolina e no diesel

Próximo

Pix Automático promete transformar pagamentos recorrentes no Brasil

Acessar o conteúdo
Visão Geral

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.