Dono de oficina mecânica em Jundiaí salta de R$ 120 mil de faturamento para R$ 3 milhões

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Com alta demanda por serviços de reparo no País, setor cresce e exige conhecimento em novas tecnologias, gestão e especialização

Com a inteligência de dados avançando velozmente no mundo, causa estranheza afirmar que em muitas oficinas mecânicas no Brasil falta o básico: conhecimento em gestão. Mesmo com a experiência de anos em reparação automotiva, desconhecer seus próprios indicadores financeiros é fazer a operação do negócio às cegas. Do contrário, se o gestor de oficina conhece de gestão, ele consegue facilmente mensurar, por exemplo; a quantidade de veículos que circulam no espaço; sabe qual é o ticket médio, tem uma lista do tipo de serviços que mais é demandado; a variação de perfis de cliente que atende; a idade da frota, e por aí vai. Com esses dados, eleva ainda mais a capacidade produtiva, melhora a experiência do cliente e, naturalmente, o faturamento.

É o caso do Sergio Santos, proprietário da SR Motors, mecânico de automóveis em Jundiaí, no interior de São Paulo. “Vi meu faturamento saltar de R$ 120 mil para R$ 3 milhões ao longo do tempo e estando no mesmo local por 19 anos, fruto da tríade: conhecimento em gestão, produtividade e ampliação do espaço”, explica Santos.  

A virada de chave aconteceu em 2017, quando precisou aprender a gerenciar a própria oficina. Hoje com 15 mecânicos no time, ele começou o negócio na garagem da avó em 2004.  “Fiz o primeiro reparo em um chevette quando tinha 16 anos. No carro havia uma família com três crianças e, um deles, após ver que o veículo havia sido reparado, disse à mãe ´que eu havia salvado o passeio deles e que eu era um herói´. Daquele dia em diante decidi que ia consertar carro”, relembra.

Sergio, que tem uma cruz tatuada no antebraço, fez cursos pelo Sebrae e pela Escola do Mecânico. Aos 45 anos, sendo 26 anos de profissão, diz que a falta de gestão dificulta muito o trabalho do mecânico. “Ainda que tenha muito trabalho e clientes – ainda mais neste momento em que a maioria das pessoas ficam mais tempo com o automóvel e precisam fazer manutenção periódica -, o dinheiro passa pelas mãos dele, mas não fica. Está sempre ali no limite emocional prestes a desistir, e cansado dos resultados ruins que está tendo financeiramente, além da dificuldade de recrutar”, pontua o empreendedor. Ele explica que, atualmente, na SR Motors, existem cinco níveis no plano de carreira dos mecânicos. Seguindo o piso de mercado, o profissional começa como auxiliar ganhando em torno de R$ 1.744,00 até chegar no nível de especialista com salário que pode chegar a R$ 6,5 mil. “Até para você conseguir bons profissionais é preciso conhecer de processos, gestão, fundamental”.

Profissionais da área afirmam que donos de oficinas poderiam elevar o patamar de faturamento se entendessem mais sobre o negócio. É o que acredita Sandra Nalli, CEO e fundadora da Escola do Mecânico, que tem mais de 30 anos na área. “O mecânico sofre, não sabe fazer gestão financeira, se confunde, e algumas oficinas acabam não prosperando. Nós, enquanto escola que trabalha para gerar impacto social, temos a preocupação em ajudar a melhorar rentabilidade por meio da profissionalização, porém o dono da oficina precisa entender que, se não investir em treinamento e em gestão, são fatores limitantes para ele crescer”.


Sandra, que no passado foi mecânica em uma grande empresa do setor, já qualificou mais de 120 mil pessoas, desde a fundação da escola em 2011. Hoje, soma mais de 50 escolas em todo País, entre rede própria e unidades franqueadas, com uma receita generosa de R$ 62 milhões. A previsão para este ano é chegar em R$ 82 milhões, já que, dentre outras coisas, o volume de matrículas é estimado em 32%. A ideia de empreender começou como um projeto social que Sandra tinha na Fundação Casa. Ela percebeu que podia formar alguns detentos que tinham vocação para esse tipo de trabalho, pois, à época, já vivia o dilema para contratar mão de obra qualificada. Então viu que podia ela mesma formar essas pessoas e empregá-las. Não à toa, que, anos depois, já com a empresa, criou o app Emprega Mecânico.

Desde que a plataforma foi criada, cerca de 30% dos alunos formados pela Escola do Mecânico foram encaminhados ao mercado de trabalho, algo em torno de 40 mil alunos. A meta é aumentar em 50% o número de usuários ativos até o início do próximo ano com o lançamento da plataforma de apoio do Emprega+.  “Uma em cada três oficinas no País sofre carência de mão de obra qualificada, não encontra pessoas para contratar. Esse dado é assustador e não podemos nos conformar, nem com a falta de profissionalização, tampouco com a falta de gestão. Vamos mudar essa realidade com o apoio da indústria e das grandes empresas do ramo automotivo, por meio de ações e parcerias e pela comoção de boas histórias”, afirma Sandra.


Raio-x do mecânico (a) de hoje

Atualmente, o Brasil concentra 33% das oficinas mecânicas, sendo que 74 mil delas estão em plena atividade. Segundo dados da Oficina Brasil, são 300 mil profissionais, em um mercado que movimenta mais de R$ 60 bilhões apenas com peças técnicas e lubrificantes, sem considerar lataria, pneus, tintas ou mão de obra, e que cresceu mais de 50% nos últimos quatro anos. De acordo com o Sindipeças, o setor faturou R$ 256,7 bilhões em 2024, um crescimento de 13,3% em relação ao ano anterior. A expectativa é de crescimento adicional de 5% em 2025. Outro dado interessante é que, de 2019 para cá, aumentou o número de mulheres na área em 230%.

“Antes de fazer o curso, eu ganhava R$ 2 mil. Penso em faturar algo em torno de R$ 5 a mil R$ 10 mil”, explica Larissa Siqueira. Com 24 anos, ela representa muito bem o time das mulheres. Mãe, esposa e cinco anos na área, já soma 76 mil seguidores no Instagram. Junto ao marido, abriu recentemente a própria oficina de reparação e serviços em estética automotiva. Seu maior incentivador foi o pai. Ele a inspirou, ensinou e a motivou a continuar, porém, assume que ainda lhe falta gestão.



“Essa é uma parte que tenho aprendido bastante e ainda preciso me aperfeiçoar mais e estudar. Acredito que os jovens querem estudar e conhecer mais sobre esse setor, o problema está nos mais velhos que não procuram se atualizar”, diz. O maior desafio, segunda ela, é ainda provar aos clientes que é capaz. “Por ser mulher muitos acham que não vamos dar conta, que nos falta capacitação, ou que não sabemos o que estamos fazendo, mas aos poucos vou ganhando a confiança”.

É muito difícil encontrar oficinas em que o dono não tenha experiência em mecânica. Porém, ainda tem aqueles que estudam para abrirem suas próprias empresas e, neste caso, são pessoas com menos experiência, mas muita vontade de fazer as coisas darem certo. “Em média, os donos de oficinas têm entre 35 anos e 50 anos e, em média, faturam algo em torno de R$ 90 mil a R$ 130 mil. Aqui vale reforçar que estamos falando de média de faturamento, algumas faturam mais de R$ 200 mil/mês”, diz Fábio Moraes, fundador da Ultracar, sistema de gestão para oficinas automotivas.

O Brasil é um país que não investiu na formação técnica nos últimos 30 anos. Por vários motivos acabou investindo mais na formação de nível superior e, com o passar do tempo, o mercado passou a ter escassez de profissionais com formação técnica impactando na falta de profissionais. Segundo Moraes, a gestão bem implementada pode resolver inclusive o problema da mão de obra qualificada. “Investir em ferramentas e equipamentos é essencial, mas não é tudo. Investir em gestão é planejar melhor o futuro da oficina e isso significa que, nos dias de hoje, para se tornar um profissional acima da média é necessário conhecer de tecnologia e estudar para aumentar o conhecimento”.


Outro ponto levantado pelo empreendedor com formação em Matemática é que, o mesmo carro ficava com o mesmo dono 7,5 anos em média até o início da pandemia, mas, nos dias de hoje, o mesmo carro permanece cerca de 11,8 anos com o motorista, ou seja, o carro está ficando mais tempo com o mesmo dono. “Além da falta de dinheiro para a aquisição de um carro novo, os consumidores entenderam que para ter o mesmo carro por mais tempo é necessário dar mais manutenção”, afirma. A plataforma da Ultracar otimiza processos para aumentar a produtividade, além de impulsionar resultados para mais de 3 mil oficinas em todo o Brasil, consolidando-se como líder em tecnologia e inovação para o setor.

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