Anfavea defende manutenção de cronograma tarifário e alerta para riscos aos investimentos da indústria automotiva

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Entidade publica carta aberta pedindo que Governo Federal preserve regras acordadas para importação de veículos elétricos e kits de montagem, alegando impactos sobre investimentos, empregos e cadeia de fornecedores

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou nesta sexta-feira (19) uma carta aberta defendendo a manutenção integral do cronograma de recomposição das tarifas de importação para veículos elétricos e o encerramento definitivo das cotas de importação de kits para montagem de veículos com alíquota reduzida ou zerada.

Segundo a entidade, as medidas fazem parte de um acordo firmado entre o Governo Federal e a indústria automotiva para dar previsibilidade ao setor e sustentar os investimentos anunciados pelas montadoras no Brasil. Para a Anfavea, qualquer alteração nas regras neste momento poderá comprometer a confiança dos investidores e afetar projetos ligados à eletrificação, inovação e desenvolvimento industrial.

De acordo com a associação, o cronograma de recomposição tarifária foi definido em 2023 e aperfeiçoado em 2025 após negociações entre governo e setor produtivo, buscando equilibrar o avanço da eletromobilidade com a expansão da produção nacional.

A entidade afirma que as fabricantes anunciaram mais de R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, destinados à eletrificação, descarbonização, engenharia, pesquisa, desenvolvimento e fortalecimento da cadeia de fornecedores instalada no país.

Estoques elevados preocupam o setor

Na carta, a Anfavea chama atenção para o aumento dos estoques de veículos importados, que chegaram ao equivalente a 150 dias de vendas em maio de 2026. Segundo a entidade, o movimento indica que algumas empresas estariam antecipando importações durante o período de tarifas reduzidas, criando distorções competitivas em relação aos fabricantes instalados no Brasil.

A associação também destaca que o mercado brasileiro continua atraindo novos concorrentes, apontando a chegada de onze novas marcas apenas no primeiro trimestre deste ano como demonstração de que o cronograma atual não representa uma barreira à entrada de fabricantes estrangeiros.

Outro dado apresentado é o crescimento dos veículos eletrificados produzidos nacionalmente. Segundo a Anfavea, eles responderam por 26% das vendas do segmento em 2025 e já representam 40% em 2026. Paralelamente, os emplacamentos de veículos eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025.

Defesa da produção nacional

A Anfavea reconhece que a utilização de kits importados para montagem de veículos pode desempenhar um papel importante nas fases iniciais de implantação industrial. No entanto, sustenta que esse modelo deve evoluir para maior nacionalização da produção, desenvolvimento de fornecedores locais e incorporação de tecnologia.

Na avaliação da entidade, transformar mecanismos transitórios em políticas permanentes reduz os incentivos à agregação de valor e pode enfraquecer a cadeia automotiva brasileira.

Um estudo elaborado pela própria associação estima que uma eventual ampliação da produção baseada em kits importados poderia provocar perdas de R$ 96,8 bilhões em vendas para a indústria de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões na arrecadação federal e a eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos, além de aproximadamente 191 mil postos de trabalho em toda a cadeia automotiva.

Principais pleitos apresentados

Na carta aberta, a Anfavea solicita ao Governo Federal:

  • manutenção integral do cronograma de recomposição das tarifas de importação para veículos elétricos, sem adiamentos;
  • não renovação das cotas de importação com alíquota zero para kits de montagem, encerradas em janeiro de 2026;
  • não criação de mecanismos equivalentes que posterguem o cronograma tarifário;
  • realização de diálogo prévio com a indústria antes de qualquer alteração nas regras que fundamentaram os investimentos anunciados.

Para a entidade, preservar as condições pactuadas é essencial para garantir segurança jurídica, ampliar a competitividade da indústria nacional e consolidar o Brasil como polo de engenharia, inovação e desenvolvimento da nova mobilidade.

Leia a Carta:

CARTA ABERTA

Pela manutenção dos compromissos assumidos com a indústria automotiva brasileira e preservação dos investimentos em novas tecnologias em curso

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) vem a público reafirmar a importância de se preservar, integralmente, o cronograma de recomposição tarifária para importação de automóveis elétricos e de se manter o fim das cotas de importação de kits para a montagem de veículos sem o devido recolhimento de tributos. As duas medidas são resultado de amplo debate sobre o futuro da política industrial brasileira e representam compromissos assumidos pelo Governo Federal com os fabricantes brasileiros no ano passado. Manter as medidas tal como foram anunciadas é assegurar a previsibilidade e a estabilidade das regras sobre as quais o setor automotivo decidiu investir no país.

A política de transição das alíquotas de importação para veículos elétricos foi estabelecida em 2023 e aperfeiçoada em 2025 após um profundo processo de discussão entre governo e setor produtivo. O cronograma vigente é uma solução equilibrada, que conciliou o necessário avanço da eletrificação no país com a necessidade de estimular investimentos produtivos no Brasil, capazes de gerar empregos de qualidade, renda para as famílias, inovação e desenvolvimento de longo prazo.

A recomposição tarifária em curso, após um longo período de redução, não prejudica o nível de abertura comercial necessário para estimular a entrada de novos competidores, como comprova o ingresso massivo de novas marcas no país. Somente no primeiro trimestre deste ano, onze novas marcas chegaram ao mercado brasileiro.

Outra evidência alarmante é o crescimento dos estoques. Impulsionados pelos importados, eles chegaram a 150 dias em maio de 2026. Isso mostra que o período de redução de tarifas vem sendo usado por algumas empresas para o abastecimento antecipado, o que certamente distorcerá as condições comerciais oferecidas pelos competidores brasileiros.

Refletindo os debates travados e as regras pactuadas, as fabricantes nacionais reafirmaram seu compromisso com o país. Foram anunciados mais de R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até 2033, destinados à eletrificação, descarbonização, engenharia, pesquisa e expansão da cadeia de suprimentos. Além disso, associadas da Anfavea aceleraram a ampliação de seu portfólio, associando-se a novas marcas e robustecendo os planos de fabricação nacional. Tudo sem pedir cotas ao governo ou qualquer mudança nas regras previamente acordadas.

Os resultados já aparecem: em 2025, os eletrificados produzidos no país responderam por 26% das vendas do segmento; em 2026, esse percentual já chega a 40%. Ainda assim, os emplacamentos de importados cresceram 214% entre 2023 e 2025, mais uma prova de que a recomposição gradual não impede a expansão do mercado.

O desafio do Brasil não é ampliar a eletrificação, que já avança em ritmo acelerado. O desafio é garantir que essa transformação venha acompanhada de mais engenharia e inovação, do fortalecimento da nossa cadeia de fornecedores e de empregos ainda mais qualificados. A eletromobilidade gerará mais benefícios ao país quanto maior for sua capacidade de agregar valor e fortalecer a base industrial e tecnológica nacional.

A Anfavea reconhece que a fabricação de veículos com o uso de kits importados pode cumprir papel relevante nas fases iniciais de implantação industrial. Sua utilização, porém, deve evoluir para a integração produtiva, o desenvolvimento de fornecedores e a incorporação de tecnologia, e não ser usada em alto volume, distorcendo as condições competitivas e desestimulando investimentos estruturantes para o país.

Transformar instrumentos transitórios em mecanismos prolongados reduz os incentivos à agregação de valor. Esse risco já pode ser observado no uso das cotas, que foram concebidas como instrumento de transição, mas foram apropriadas de modo desproporcional por algumas empresas para ampliar estoques de importados, sem qualquer adensamento da indústria nacional.

Estudo da Anfavea aponta que a eventual massificação da fabricação de veículos com o uso de kits importados significaria perda potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para o setor de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões em arrecadação para o Governo Federal e a eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil em toda a cadeia.

Por isso, a Anfavea defende:

– Manutenção integral do cronograma de recomposição tarifária já estabelecido, sem postergações;

– Não renovação das cotas de importação com alíquota zero, encerradas em janeiro de 2026;

– Não criação de ex-tarifários ou mecanismos equivalentes à postergação do cronograma;

– Diálogo prévio com a indústria diante de qualquer mudança nas condições que fundamentaram os investimentos anunciados.

Alterar as regras na etapa final de sua implementação compromete a confiança de quem investiu com base nelas. Mais do que volumes de produção, está em jogo a capacidade de o Brasil preservar investimentos, ampliar sua competitividade e consolidar-se como polo de engenharia, inovação e desenvolvimento da nova mobilidade.

Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores — Anfavea

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