Indústria global de autopeças entra em nova fase estrutural com crescimento moderado e mudança de valor

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Apesar do avanço, estudo mostra que 53% dos entrevistados acreditam na deterioração da indústria de fornecedores

A indústria global de fornecedores automotivos saiu da fase mais aguda da crise para entrar em um ambiente estruturalmente mais desafiador, marcado por volatilidade, pressão de custos e uma transformação tecnológica profunda. É o que revela o estudo “The 2026 Global Automotive Supplier”, produzido pelo Boston Consulting Group (BCG).

A pesquisa mostra que, apesar de um crescimento anual projetado de cerca de 3,5% no valor global de componentes até 2035, há uma mudança relevante na distribuição de valor no setor. Tecnologias ligadas a veículos elétricos, software automotivo e sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS) devem crescer a taxas de dois dígitos, enquanto componentes tradicionais de motores a combustão seguem em declínio estrutural.

No entanto, os executivos do setor ouvidos pelo BCG apontam a continuidade da pressão sobre as margens, o aumento dos custos e a incerteza na demanda por veículos elétricos como os principais desafios para os próximos anos. Apesar disso, o sentimento revela um otimismo cauteloso, com líderes indicando uma mudança clara de foco, marcada por maior disciplina na alocação de capital e priorização de crescimento seletivo.

Transformação estrutural, não conjuntural
 

Segundo o BCG, o setor abandonou a lógica de crise cíclica e passou a operar em um novo patamar de complexidade. O levantamento mostra que eficiência operacional voltou ao topo da agenda, ao lado de investimentos direcionados em tecnologias de maior crescimento.

“Houve uma mudança de postura. Em vez de expansão ampla, muitos fornecedores estão revisando seus portfólios, reduzindo exposição a segmentos de menor retorno e concentrando investimentos em áreas com maior potencial de criação de valor”, comenta Masao Ukon, líder da prática automotiva do BCG na América do Sul.

Atualmente, as empresas mais avançadas nesses temas demonstram maior confiança em sua capacidade de crescimento e melhor desempenho financeiro relativo. Por isso, o estudo propõe cinco estratégias para os fornecedores que ainda precisam se reposicionar para capturar valor na próxima década:

  • Reestruturar a base de custos e rentabilidade
  • Construir cadeias de suprimento mais resilientes e regionalizadas
  • Redirecionar investimentos para áreas de alto crescimento
  • Incorporar inteligência artificial nas operações
  • Transformar competências e modelos organizacionais

Perspectiva para o Brasil e América Latina

No Brasil, o cenário combina desafios e oportunidades. A transição tecnológica avança de forma mais gradual, marcada pela coexistência de diferentes soluções – como motores a combustão interna, híbridos e eletrificados –, além da adoção em larga escala de biocombustíveis. Esse contexto exige maior flexibilidade estratégica por parte da cadeia de fornecedores.

“Vemos uma janela clara de oportunidade para o país. Nesse cenário em que crescimento por si só deixou de ser prioridade, quem conseguir equilibrar eficiência operacional com apostas certas em tecnologia tende a capturar mais valor. Por isso, fornecedores que combinarem eficiência operacional com posicionamento em tecnologias do futuro, como eletrônica embarcada, software e soluções para veículos híbridos, podem capturar uma parcela relevante do novo valor que está sendo criado na cadeia automotiva global”, afirma Ukon.

“Vemos uma janela clara de oportunidade para o país. Em um cenário de crescimento moderado, ganhos de eficiência operacional e apostas focadas em tecnologia tendem a ser ainda mais relevantes. Por isso, fornecedores que combinarem eficiência operacional com posicionamento em tecnologias do futuro – como eletrônica embarcada, software e soluções para veículos híbridos e biocombustíveis –, poderão capturar uma parcela relevante do novo valor gerado na cadeia automotiva global”, afirma Ukon.

Segundo o executivo, o setor automotivo entrou em uma nova fase em que é preciso se reinventar continuamente, o que exige dos fornecedores uma capacidade maior de adaptação e alocação de capital. Ao mesmo tempo, resiliência da cadeia de suprimentos e estratégias mais regionalizadas passam a ser requisito básico.

“O Brasil pode se beneficiar desse movimento, desde que haja coordenação entre indústria, montadoras e políticas públicas”, conclui o especialista.

O estudo completo está disponível, em inglês, no site do BCG.

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