Entidade propõe salvaguardas comerciais, sobretaxas e cotas para veículos importados, especialmente os provenientes da China; emplacamentos de modelos vindos do exterior cresceram 30,4% até setembro
O avanço das importações de veículos no Brasil voltou à pauta de discussões entre a indústria automotiva e o governo federal. Em reunião realizada no dia 29 de outubro com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, representantes da Anfavea apresentaram propostas para estabelecer mecanismos de controle sobre a entrada de modelos importados, com o objetivo de preservar a competitividade da produção nacional e os investimentos na cadeia automotiva.
Durante o encontro, o presidente da entidade, Igor Calvet, apresentou um levantamento sobre o comportamento do mercado nos últimos dez anos, abrangendo veículos leves, pesados e máquinas agrícolas e de construção. A principal preocupação, segundo a associação, é o crescimento das importações sem contrapartida de produção industrial no Brasil.
Para a Anfavea, a diferença nas condições de concorrência entre veículos fabricados no país e modelos importados pode afetar a geração de empregos, os investimentos e o desenvolvimento da indústria automotiva nacional.
Entre as alternativas apresentadas ao governo estão a adoção de salvaguardas comerciais temporárias, com sobretaxas para veículos importados por empresas sem produção local, a criação de uma CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre importações e o estabelecimento de cotas para veículos de origem chinesa.
Uma das propostas considera negociar com a China limites equivalentes a 2,5% a 3% do mercado brasileiro, o que representaria entre 75 mil e 90 mil veículos por ano para empresas que não realizam etapas de fabricação no país. A discussão também envolve os modelos eletrificados, segmento no qual a presença de marcas chinesas tem crescido significativamente.
Alckmin, de acordo com a Anfavea, comprometeu-se a encaminhar as sugestões às áreas técnicas e jurídicas do governo. As discussões devem ser retomadas em novembro, embora ainda não haja decisões ou prazos estabelecidos.
Importações avançam 30,4% no acumulado do ano
Os números ajudam a dimensionar a preocupação da indústria. De janeiro a setembro de 2026, os emplacamentos de veículos importados cresceram 30,4% em relação ao mesmo período de 2025, totalizando 463,9 mil unidades, considerando automóveis, comerciais leves, ônibus e caminhões.
Os veículos leves responderam pela maior parte desse volume, com 459,4 mil unidades, enquanto caminhões e ônibus somaram 4,5 mil licenciamentos.
Outro destaque é a participação dos eletrificados. Dos veículos importados no período, 262 mil eram elétricos ou híbridos, crescimento de 82,7% na comparação anual.
A China lidera com folga a origem das importações brasileiras. Foram 254,9 mil veículos provenientes do país asiático nos nove primeiros meses do ano, alta de 106,4% sobre 2025. Com isso, os modelos chineses já representam mais da metade dos veículos importados e alcançam 11,3% de participação no mercado nacional.
O movimento não se restringe aos automóveis. No segmento de máquinas agrícolas, as importações de tratores chineses aumentaram 117% entre janeiro e setembro, chegando a 5,2 mil unidades. Considerando todas as origens, as importações de tratores avançaram 42% no mesmo intervalo.
O debate coloca em evidência um desafio para o setor automotivo brasileiro: conciliar a ampliação da oferta de veículos e tecnologias com condições de concorrência que estimulem a produção local, a geração de empregos e o fortalecimento de toda a cadeia produtiva.







