O Brasil pode transformar sua rota de descarbonização em vantagem competitiva global

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Projeções do setor indicam que diesel ainda será dominante no transporte pesado até 2040, enquanto biocombustíveis e eficiência ganham protagonismo

A descarbonização da mobilidade no Brasil deve seguir um caminho diferente do observado em mercados como Europa e China, onde a eletrificação domina o debate. Por aqui, a tendência é de convivência entre múltiplas tecnologias, com forte presença ainda dos motores a combustão. A avaliação foi reforçada por Adriano Rishi, presidente da Cummins Brasil, durante entrevista ao podcast Conexão MBCBrasil – a Mobilidade em pauta, do Instituto MBCBrasil. 

Segundo o levantamento “Iniciativas e Desafios Estruturantes para Impulsionar a Mobilidade de Baixo Carbono no Brasil até 2040”, a frota de caminhões no país deve crescer de cerca de 2,3 milhões para 3,4 milhões de veículos até 2040. Mesmo com o avanço de novas tecnologias, aproximadamente 85% desses veículos ainda utilizarão motores a combustão, majoritariamente movidos a diesel. “Não existe uma tecnologia única que resolva a descarbonização. O que vemos é a necessidade de aplicar a tecnologia certa, no momento certo, para cada tipo de operação”, afirma o presidente da Cummins Brasil.

Para o executivo, fatores como infraestrutura, custo e aplicação prática são determinantes para a adoção de soluções de baixo carbono, o que favorece o uso de biocombustíveis e o aumento da eficiência energética no transporte pesado. 

Diesel mais eficiente e biocombustíveis ganham espaço

Apesar da pressão internacional pela eletrificação, especialmente na Europa e na China, o contexto brasileiro impõe outra lógica. A combinação de uma matriz energética já relativamente limpa, ampla disponibilidade de biocombustíveis e limitações de infraestrutura para eletrificação em larga escala torna a transição mais híbrida.

Nesse cenário, o próprio diesel tende a continuar evoluindo, já que o ganho de eficiência energética nos motores atuais já representa uma redução relevante de emissões. Muitas vezes, modernizar a frota traz impacto mais imediato do que trocar completamente a tecnologia.

Além disso, soluções como etanol, biometano e combustíveis renováveis avançados começam a ganhar tração em aplicações específicas, especialmente em operações logísticas e industriais com maior previsibilidade de abastecimento. 

Renovação de frota é gargalo crítico

Um dos principais entraves para acelerar a descarbonização no país está menos na tecnologia e mais na idade da frota. Hoje, o Brasil opera com uma taxa de renovação de caminhões próxima de 7% ao ano, considerada baixa para gerar impacto significativo nas emissões.

Veículos mais antigos consomem mais combustível e poluem mais, o que torna a substituição por modelos mais novos, mesmo dentro da mesma tecnologia, uma das medidas mais eficazes no curto prazo. “Sem renovação de frota, o impacto de qualquer nova tecnologia acaba diluído. Esse é um ponto central que precisa entrar na agenda de políticas públicas”, diz Rishi.

Outro fator decisivo para o avanço da descarbonização é a previsibilidade regulatória. Segundo o setor, expressa por representantes do Instituto MBC Brasil, a ausência de regras claras ainda limita investimentos em novas tecnologias e infraestrutura. Iniciativas como o programa Mover e a Lei do Combustível do Futuro, são vistas como passos importantes, dentro de um contexto que ainda exige o fortalecimento da previsibilidade regulatória no longo prazo.

Diante desse cenário, cresce a avaliação de que o Brasil pode se tornar referência para países do chamado Sul Global, que enfrentam desafios semelhantes de renda, infraestrutura e acesso à tecnologia. Ao invés de replicar modelos baseados exclusivamente na eletrificação, o país pode liderar uma abordagem baseada na integração entre biocombustíveis, eficiência energética e múltiplas rotas tecnológicas. “Existe uma oportunidade clara para o Brasil manter esse protagonismo na descarbonização e não ficar só com esse avanço dentro do país, mas levar isso para fora. O Brasil tem uma contribuição importante a fazer, tanto para o mercado quanto para o planeta como um todo”, conclui o executivo.


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