Avanço da mobilidade sustentável exige planejamento e adaptação da indústria automotiva

9 minutos de leitura

Por Erick Rodrigues
 

A busca por modelos de transporte mais sustentáveis tem impulsionado transformações na indústria automotiva, no intuito de conciliar inovação, eficiência e responsabilidade ambiental. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto da Qualidade Automotiva (IQA), as empresas do setor estão acelerando a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, com 79% das organizações já contando com planos relacionados aos ODS. No entanto, este processo enfrenta desafios para transformar compromissos e metas em ações concretas, considerando que apenas 19% das companhias avaliadas possuem orçamento específico para essas iniciativas. 

No que diz respeito à frota circulante, em setembro de 2026, o Brasil chegou à marca de 1 milhão de veículos leves eletrificados emplacados desde 2012, de acordo com a Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE). Já em âmbito mundial, um relatório da Ember aponta que as vendas globais de carros elétricos aumentaram 11% entre março e agosto de 2026 em relação ao mesmo período no ano anterior, por conta dos conflitos no Oriente Médio, enquanto o comércio de automóveis com motor a combustão caiu 6%. O estudo também aponta que este movimento substituiu o consumo de aproximadamente 200 milhões de barris de petróleo bruto. 

Este panorama do mercado reforça que a transição para uma mobilidade verde vem se intensificando nacional e mundialmente. Entretanto, mesmo com políticas públicas de incentivo, como o Programa Mover, a indústria automotiva ainda apresenta gargalos para implementar uma agenda mais sustentável e responsável em comparação a outros países. 

Obstáculos para a indústria automotiva 

Um avanço como este exige que o setor automotivo reveja suas operações, o desenvolvimento de produtos, a gestão de recursos e a relação com fornecedores. Nesse processo, os ODS oferecem um direcionamento estratégico para conciliar competitividade e resultados socioambientais concretos. 

Um dos principais obstáculos, porém, é a falta de conhecimento aplicado sobre os objetivos. Embora gestores e colaboradores os conheçam conceitualmente, ainda há dificuldades para relacioná-los aos processos, indicadores e decisões cotidianas. Assim, a sustentabilidade pode ficar restrita a relatórios e iniciativas isoladas em vez de influenciar diretamente a gestão do negócio como um todo. 

Outro desafio é incorporar os ODS ao planejamento e à distribuição de recursos. A existência de um orçamento específico para a agenda ambiental é importante para viabilizar iniciativas, porém o compromisso com ações responsáveis deve permear diferentes áreas e projetos, reduzindo a dependência de investimentos isolados e sua vulnerabilidade a restrições econômicas. 

Para isso, as lideranças precisam avaliar como os processos internos das organizações podem contribuir para os objetivos da ONU. Medidas como a otimização do consumo de energia, uso mais eficiente de matérias-primas, redução de resíduos, reaproveitamento de materiais e adoção de critérios socioambientais na escolha de fornecedores podem gerar ganhos operacionais e contribuir para diferentes ODS. 

Superar esses desafios exige o engajamento de toda a cadeia produtiva na adoção de práticas responsáveis, capazes de consolidar a agenda ambiental como norte do desenvolvimento do setor automotivo. Nesse contexto, a indústria de lubrificantes contribui diretamente para impulsionar o desenvolvimento de produtos e tecnologias que aumentam a eficiência energética, prolongam a vida útil dos componentes e reduzem emissões. 

Papel dos lubrificantes para a sustentabilidade
 

No setor automotivo, a busca pela mobilidade sustentável amplia a importância do controle de emissões e da eficiência de veículos a combustão, num processo em que os lubrificantes contribuem para otimizar os sistemas veiculares, reduzindo o atrito entre componentes e o consumo de energia, preservando motores e peças e favorecendo o uso eficiente de recursos ao longo da vida útil dos veículos.Embora os carros elétricos dispensem o óleo de motor, eles ainda dependem de lubrificantes com formulações específicas para proteger engrenagens, rolamentos e outros componentes móveis, reduzir o atrito e minimizar o desgaste em conjuntos eletrificados, de modo a otimizar a eficiência energética e a durabilidade desses veículos. 

Por conta disso, a manutenção preventiva também é uma aliada da sustentabilidade. Inspeções periódicas, monitoramento das condições dos lubrificantes e respeito aos intervalos de troca recomendados ajudam a identificar desgastes precocemente, evitar falhas e prolongar a vida útil dos componentes. Essas medidas também reduzem vazamentos, trocas prematuras de óleo e a geração de resíduos, minimizando os riscos de contaminação ambiental. 

A pegada de carbono deste item é um ponto de atenção para a indústria, que precisa considerar não apenas os benefícios associados ao uso de lubrificante, mas também as emissões geradas durante sua fabricação. Para mitigar esses efeitos, é importante que as empresas adotem medidas para tornar seus processos produtivos mais sustentáveis, como o uso de fontes renováveis de energia, com a devida certificação, a substituição de matérias-primas convencionais por alternativas de menor impacto ambiental, como materiais reciclados ou de origem renovável, além de componentes biodegradáveis. 

A responsabilidade ambiental da indústria também envolve a destinação adequada dos óleos usados, cujo descarte incorreto pode contaminar o solo e os recursos hídricos. Para avançar nesse sentido, o setor precisa ampliar os sistemas de coleta, sobretudo em regiões com acesso limitado a pontos de entrega, e conscientizar empresas e consumidores sobre a importância da destinação correta. 

Ainda assim, a redução de emissões é apenas uma das frentes de atuação. A evolução tecnológica da indústria exige acompanhamento contínuo dos impactos ambientais e avaliação criteriosa de mudanças nos processos produtivos e nos materiais utilizados. Esse esforço depende de conhecimento técnico, pesquisa e colaboração entre empresas, fornecedores e usuários, para que a inovação resulte em melhorias efetivas ao longo de toda a cadeia. 

O caminho para uma indústria automotiva mais sustentável no Brasil é desafiador, mas também oferece oportunidades para inovar, aumentar a eficiência operacional, reduzir desperdícios e fortalecer a competitividade. Cabe às lideranças transformar os compromissos ambientais em ações concretas e mensuráveis, capazes de conciliar desenvolvimento econômico e responsabilidade socioambiental e contribuir para uma mobilidade mais eficiente e sustentável.

Erick Rodrigues é Coordenador de Qualidade e Meio Ambiente da FUCHS

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