Encomendado pelo MBCBrasil, material visa acelerar o uso do combustível renovável em escala global e destaca oportunidade para o Brasil em energia e tecnologia
O biometano consolidou-se como uma das soluções mais imediatas, maduras e custo-eficientes para acelerar a descarbonização do transporte terrestre em escala mundial, sobretudo no segmento pesado e de longa distância. É o que aponta o Biomethane for Transport Decarbonization, um novo estudo internacional de síntese da literatura encomendado pelo Instituto MBCBrasil e desenvolvido por pesquisadores de quatro instituições de referência: professora Gláucia Mendes Souza, da Universidade de São Paulo (USP) e líder da IEA Bioenergy Task 39; Luís Augusto H. Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI); Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC); e Clayton Barcelos Zabeu, do Instituto Mauá de Tecnologia.
Elaborado com o objetivo de fomentar e orientar a utilização do biometano no transporte terrestre em nível global, o estudo reúne evidências científicas e econômicas aplicáveis a mercados maduros e emergentes nas Américas, Europa, Ásia e África. O trabalho mostra que o combustível — produzido a partir da biodigestão de resíduos orgânicos como vinhaça, dejetos animais, lixo urbano e esgoto — une redução expressiva de gases de efeito estufa (GEE), segurança energética e benefícios diretos para a economia circular e a saúde pública.
Um movimento global em aceleração
A transição para o biometano já é uma realidade industrial no mundo, produzido em cerca de 40 países e utilizado no transporte em quase 30 mercados. Globalmente, o potencial sustentável de biogás e biometano atinge cerca de 1 trilhão de m³ por ano — o equivalente a cerca de 25% de toda a demanda mundial de gás natural.
Demonstrando o peso estratégico do combustível no cenário internacional, a União Europeia estabeleceu a meta de alcançar 35 bilhões de m³ (bcm) por ano de produção de biometano até 2030 (dentro do plano REPowerEU), estimando investimentos da ordem de € 37 bilhões. Paralelamente, os Estados Unidos já contam com 470 projetos de gás natural renovável (RNG), e a Índia registra mais de 7,7 milhões de veículos a gás em circulação.
“Levantamos evidências de dezenas de fontes internacionais e nacionais com o objetivo de demonstrar como o biometano pode impulsionar a transição energética no transporte terrestre em escala global. O retrato é consistente: o combustível é uma solução madura, viável e com benefícios sistêmicos para diversos países. Dentro desse cenário mundial, o Brasil se destaca pela escala, mas a grande oportunidade do país não é apenas produzir o combustível, e sim liderar o fornecimento de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções integradas desenvolvidas aqui para outros mercados que buscam se descarbonizar”, afirma a professora Gláucia Mendes Souza (USP), líder da IEA Bioenergy Task 39 e uma das autoras do estudo.
A oportunidade brasileira: combustível, tecnologia e exportação de soluções
Se a maior adoção do biometano internacionalmente cria demanda por energia limpa, para o Brasil ela representa uma oportunidade dupla. De um lado, o país possui a maior abundância de matérias-primas agroindustriais do planeta: somente no setor sucroenergético, o potencial brasileiro é estimado em 41,4 bilhões de m³ por ano (equivalente a mais de 41 bilhões de litros de diesel), dos quais hoje se aproveita menos de 2%.
De outro lado, a consolidação desse mercado no exterior abre portas para a exportação da tecnologia e das soluções da cadeia do biometano desenvolvidas no Brasil. O parque industrial brasileiro acumulou know-how na fabricação de biodigestores verticais de alta eficiência com monitoramento em tempo real, sistemas de purificação de gás, logística de transporte por biometano líquido (bio-LNG) e integração com a produção de fertilizantes de baixo carbono.
Essa experiência acumulada no processamento de resíduos complexos como a vinhaça e a torta de filtro das usinas de cana de açúcar, posiciona a indústria brasileira como fornecedora estratégica de máquinas, serviços e engenharia para países da América Latina, Ásia e África que possuem grande base agrícola, mas ainda carecem de infraestrutura de biodigestão.
Impacto climático e redução do custo de frete
Em termos climáticos mundiais, a substituição do diesel por biometano no transporte pesado reduz emissões de CO₂ equivalente no ciclo poço-à-roda em 45% a 75%. O estudo ressalta ainda que, quando computados os créditos pela eliminação das emissões fugitivas de metano dos resíduos — metano este que possui alto poder de aquecimento global em curto prazo —, projetos baseados em dejetos e resíduos podem atingir um balanço net-negative (até -246% de emissões em relação ao diesel), retirando mais carbono equivalente da atmosfera do que emitindo.
Além do ganho ambiental e de qualidade do ar (com redução de até 10 vezes em emissões de material particulado e fuligem em relação aos combustíveis fósseis líquidos), o biometano se prova economicamente competitivo. Simulações de Custo Total de Propriedade (TCO — que soma aquisição, manutenção e operação ao longo da vida útil do veículo) para frotas pesadas indicam que o custo por quilômetro rodado com biometano no Brasil pode ser de -30% a +25% em comparação ao diesel:
| Combustível | TCO (US$/km) |
| GNL (Gás Natural Liquefeito) | 1,59 |
| GNC / Biometano | 1,73 |
| Diesel | 1,87 |
Fonte: Estudos de frete no Brasil citados no levantamento.
O biometano já se mostra mais barato que o diesel em cenários de frete pesado, mesmo antes de contabilizar receitas adicionais. E essas receitas não são triviais: o estudo mostra que, em mercados mais maduros, entre 20% e 60% da receita total de uma planta de biometano vem de fontes além da venda do combustível, como tratamento de resíduos (US$ 1 a 6/GJ), comercialização do digestato como biofertilizante (US$ 0,5 a 4/GJ) e créditos de carbono (US$ 1 a 8/GJ), entre outras. Isso muda o modelo de negócio, visto que uma planta de biometano não é só uma fábrica de combustível, é uma biorrefinaria com múltiplos produtos.
Marcos operacionais e regulação
O estudo destaca que projetos de biometano a partir da vinhaça e resíduos de cana já operam com sucesso no Brasil em usinas como Cocal (Narandiba e Paraguaçu Paulista), Raízen (Guariba), São Martinho (Pradópolis) e Adecoagro (MS). Só na safra 2024/25, o Brasil processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, gerando um volume estimado de 380 bilhões de litros de vinhaça.
Na Usina Cocal, em Narandiba (SP), a planta está em funcionamento desde 2020 e produz cerca de 50 mil Nm³ de biometano por dia a partir de vinhaça e torta de filtro, usando biodigestores verticais equipados para monitorar pH, temperatura e rendimento em tempo real — tecnologia superior às tradicionais lagoas horizontais cobertas. A mesma empresa opera uma segunda planta em Paraguaçu Paulista (SP), com produção estimada entre 30 e 40 mil Nm³/dia.
Fora do setor sucroalcooleiro, os aterros sanitários também entram nessa conta: a maior unidade do país foi inaugurada em Paulínia (SP), com capacidade nominal de até 225 mil Nm³/dia. Em Goiânia (GO), a prefeitura já anunciou a conversão da frota de ônibus urbanos para biometano produzido a partir de resíduos, com fabricantes de motores comprometidos com o fornecimento dos veículos.
O lançamento da publicação coincide com um momento regulatório estratégico no Brasil: a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) criou o Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB), permitindo que a meta compulsória de redução de emissões no gás natural (que começa em 0,5% em 2026 e sobe gradualmente até 10%) seja cumprida desacoplando a molécula física do seu atributo ambiental.
“O estudo deixa claro que o biometano não é uma aposta futura ou experimental, mas uma realidade pronta e em escala global. Ao demonstrar a viabilidade desse combustível em diferentes continentes, o material ajuda a destravar investimentos e políticas públicas ao redor do mundo. Para o Brasil, o avanço dessa pauta globalmente consolida nossa posição não apenas como grande fornecedor de energia limpa, mas como polo exportador de tecnologia e inovação para a transição energética”, destaca José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil.







